Vacas tokenizadas viram garantia de crédito rural em fazenda brasileira
Dez vacas de uma fazenda no Paraná serviram de garantia para um empréstimo depois de serem transformadas em ativos digitais, numa operação que aponta um novo caminho para o crédito rural no país. O caso, divulgado em julho de 2026, envolve a propriedade Engendro Velho, que obteve financiamento de quase US$ 20 mil usando como lastro um rebanho avaliado em cerca de US$ 24 mil.
A estrutura reuniu três empresas. A produtora recebeu uma Cédula de Produto Rural Financeira (CPR-F) com valor próximo de US$ 100 mil, emitida pela BMP, uma sociedade de crédito direto. A fintech Target FIDC registrou a transação a partir dos dados digitalizados de cada animal. A infraestrutura tecnológica ficou com a Cowmed, que instala coleiras inteligentes nas vacas para acompanhar informações de saúde em tempo real, permitindo que o credor saiba continuamente como está o rebanho.
O presidente-executivo da Cowmed, Thiago Martins, explicou a lógica da operação. "Pegamos a vaca, que é um ativo real e tangível, e a transformamos em um ativo digital lastreado por um código único monitorado em tempo real", afirmou. Com isso, o animal pode ser registrado formalmente na B3 como bem móvel, o que dá mais segurança jurídica à garantia. Para Martins, a transação dá aos pecuaristas acesso a crédito com preços mais atrativos e limites maiores.
O monitoramento é o que muda a conta para o credor. Em reportagem do Bitcoin.com News, Humberto Brenner, diretor da Target FIDC, afirmou que "o monitoramento elimina essa incerteza", referindo-se ao risco de não saber o estado real do animal dado em garantia. Segundo ele, com o acompanhamento contínuo, as vacas podem alcançar até 2,5 vezes o valor que teriam em contratos sem monitoramento.
Há regras para proteger as duas pontas. O empréstimo permanece válido enquanto a colateralização mínima de 120% for mantida. Se um animal morrer, ele pode ser substituído por outro, o que evita que o contrato perca o lastro e dá previsibilidade tanto ao produtor quanto ao financiador.
A escala potencial chama atenção. A Cowmed atende mais de 1.400 fazendas e tem mais de 900 mil vacas conectadas à sua rede. Martins projeta que, em dois anos, até 20% do rebanho monitorado poderá participar de operações de crédito, o que, pelas contas da empresa, poderia gerar um volume de US$ 78,5 milhões em financiamentos. Trata-se de uma estimativa da própria companhia, e não de um resultado já alcançado.
Para o agronegócio brasileiro, a experiência mostra como a tokenização pode sair do discurso e chegar ao pasto. O pequeno e médio pecuarista, que muitas vezes tem dificuldade para oferecer garantias aceitas pelos bancos, passa a contar com o próprio rebanho como colateral mensurável. A combinação de sensores, registro na B3 e títulos já conhecidos do setor, como a CPR, sugere um modelo que pode ser replicado, desde que os custos de monitoramento continuem compensando para quem empresta e para quem toma o crédito.
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