Stablecoin, bitcoin e ouro tokenizado chegam a carteiras africanas sem intermediário
África e os países do Conselho de Cooperação do Golfo são os mercados escolhidos pela Tether e pela Shiga para uma nova linha de serviços financeiros baseados em autocustódia. A parceria foi anunciada em 28 de setembro e dá continuidade ao investimento estratégico que a emissora da stablecoin USDT fez na Shiga em 2025.
A proposta gira em torno de três ativos: o USDT, stablecoin atrelada ao dólar americano; o bitcoin; e o XAUT, token da Tether lastreado em ouro. Com essa combinação, os usuários passam a ter acesso a classes de ativos bem diferentes entre si, que vão de uma moeda digital de valor estável a um criptoativo volátil e a um produto ligado a uma commodity tradicional.
Duas linhas de produtos foram apresentadas. A primeira, chamada ENTA, é voltada a pessoas físicas, clientes de alta renda e empresas. Nela, é possível abastecer carteiras de autocustódia com moeda local, dólares ou bitcoin e, a partir daí, guardar e transferir USDT, BTC e XAUT.
A segunda, batizada de Pulse, mira instituições como bancos e fintechs. A ideia é que essas empresas consigam montar os próprios serviços com ativos digitais em áreas como corredores de pagamento, gestão de tesouraria e fluxos de liquidação. Clientes institucionais podem usar a infraestrutura administrada pela Shiga ou implantar a tecnologia dentro dos próprios sistemas.
Os dois produtos são construídos sobre o Wallet Development Kit, o WDK, kit de código aberto da Tether para desenvolvimento de carteiras. O ponto central do projeto é a autocustódia: usuários e instituições mantêm o controle das próprias chaves privadas e dos ativos, sem depender de provedores centralizados que guardam os recursos em nome do cliente. A diferença é relevante porque, em uma carteira custodial, quem controla as chaves é a empresa, e não o dono dos fundos.
A estratégia também chama atenção pelo formato. Em vez de lançar uma carteira com a marca Tether, a companhia fornece componentes de infraestrutura para que empresas e instituições locais construam as próprias soluções, cada uma com sua marca e seu modelo de negócio.
O mercado de remessas aparece como uma das principais oportunidades. Dados do Banco Mundial citados na reportagem mostram que o custo médio para enviar dinheiro à África Subsaariana foi de 8,46% em 2025. Na avaliação apresentada, stablecoins podem reduzir o atrito nas transferências internacionais em dólar, sobretudo em regiões onde o acesso ao sistema bancário convencional é limitado.
Há ainda uma etapa regulatória em andamento. A Shiga está concluindo as fases finais de aprovação para obter uma licença de Intermediária de Ativos Digitais na Nigéria, mas essa autorização ainda não foi concedida. Até lá, a operação no país depende do desfecho desse processo.
Para o leitor brasileiro, o anúncio ajuda a entender a aposta da Tether em mercados emergentes, onde remessas caras e acesso restrito ao dólar criam espaço para alternativas digitais. A parceria, por ora, está restrita à África e ao Golfo, sem menção à América Latina, mas o modelo de fornecer infraestrutura para empresas locais, em vez de disputar diretamente o cliente final, é um sinal de como a emissora pretende ampliar o uso do USDT e dos seus outros tokens.
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