Serviço de trocas da NEAR congela parte do dinheiro roubado da Bitget e reacende debate
Entre os desdobramentos do ataque que tirou US$ 388 milhões da corretora Bitget, um dos mais debatidos envolve a NEAR Intents, serviço de trocas entre blockchains. Os invasores tentaram movimentar mais de US$ 50 milhões por meio da plataforma, mas a maior parte das transferências foi barrada, o que colocou em discussão até que ponto um serviço desse tipo pode se dizer sem permissão, ou permissionless, como se diz no setor.
O ataque à Bitget aconteceu em 24 de setembro, quando os criminosos conseguiram contornar os controles de segurança que protegiam carteiras da corretora. Depois do episódio, a empresa corrigiu a vulnerabilidade, divulgou os endereços usados pelos atacantes e ofereceu recompensas para quem ajudar na recuperação dos recursos.
Na NEAR Intents, a resposta partiu de um sistema chamado SHIELD. Ele bloqueou a maioria das transferências e congelou cerca de US$ 503 mil que estavam no meio de operações. Aproximadamente US$ 166 mil chegaram a passar pelo serviço antes de a movimentação ser detectada, e as tentativas seguintes foram rejeitadas e desviadas para outros caminhos. O gerente-geral da NEAR Intents, Alex Shevchenko, explicou que os números são estimativas, com possível variação de 10%, e que tentativas duplicadas foram retiradas da conta. Ele também lembrou que a plataforma costuma processar mais de US$ 100 milhões em volume de negociação entre redes em um único dia.
Segundo Shevchenko, o SHIELD identifica automaticamente desvios nos fluxos e reúne diversas informações de provedores de KYT, sigla em inglês para conheça sua transação, e de inteligência. Com base nesses sinais, o sistema decide como cada operação será tratada.
Outros atores também agiram. A Circle e a Tether, emissoras das stablecoins USDC e USDT, congelaram cerca de US$ 320 mil nessas moedas ligados ao ataque.
A postura da NEAR Intents contrasta com a do THORChain, protocolo que recusou o pedido da Bitget para bloquear endereços dos atacantes. Uma análise do CoinDesk identificou cerca de US$ 6,3 milhões em trocas de ether por bitcoin já concluídas pelo THORChain a partir de uma carteira associada aos invasores.
O bloqueio provocou críticas. O redator técnico Vini Barbosa argumentou que ser sem permissão significa ser neutro, e que essa é justamente a razão de construir sistemas desse tipo. Ele alertou que restrições podem atingir pessoas que tentam escapar de repressão governamental. Do outro lado, o cofundador da NEAR, Illia Polosukhin, afirmou que uma infraestrutura sem permissão não obriga cada aplicativo construído sobre ela a processar toda e qualquer transação.
A NEAR Intents informou que mantém os valores interceptados à espera de processos legais e de recuperação. A empresa, porém, não esclareceu quem autoriza a liberação desses recursos nem como usuários marcados por engano podem reaver seus ativos.
Para quem investe em cripto no Brasil, o caso ajuda a entender uma tensão presente no setor: serviços que se apresentam como abertos a todos podem, na prática, ter mecanismos de bloqueio. Isso pode ser útil para conter o fluxo de dinheiro roubado, mas também levanta dúvidas sobre neutralidade e sobre a proteção de usuários legítimos.
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