Méliuz vira a primeira empresa listada do Brasil a guardar bitcoin no caixa
Méliuz, fintech brasileira de cashback e serviços financeiros, tornou-se no início de março de 2025 a primeira companhia de capital aberto do país a adotar uma estratégia de tesouraria em bitcoin. A empresa investiu US$ 4,1 milhões na compra de 45,72 bitcoins, a um preço médio de US$ 90.926 por unidade, o que corresponde a 10% de suas reservas de caixa.
A decisão veio acompanhada de mudanças formais na governança. O conselho de administração aprovou uma nova política de tesouraria que prevê a alocação de 10% do caixa em bitcoin, e a companhia criou um Comitê Estratégico de Bitcoin para estudar a ampliação da estratégia. O objetivo declarado é buscar retornos de longo prazo com o ativo.
O presidente do conselho, Israel Salmen, defendeu a medida como uma "alternativa inteligente" à manutenção de reservas em dinheiro. "Vemos o bitcoin como uma reserva de valor de longo prazo", afirmou. A leitura da empresa é que o ativo pode proteger parte do caixa ao longo do tempo, embora se trate de uma aposta sujeita a forte volatilidade.
O contexto da Méliuz ajuda a entender a escolha. A companhia atende mais de 30 milhões de usuários no Brasil, mas, segundo a Bitcoin Magazine, viu seu valor recuar de cerca de US$ 6 bilhões em 2021 para algo próximo de US$ 270 milhões. A própria empresa avaliou que o volume de negociação fazia suas ações parecerem "irrelevantes" no mercado. Nesse cenário, a adoção do bitcoin também funciona como uma forma de chamar atenção de investidores e reposicionar a tese da companhia.
A reportagem compara o movimento ao da MicroStrategy, que detinha mais de 500 mil bitcoins, avaliados em mais de US$ 46 bilhões. Em escala muito menor, a Méliuz segue a mesma lógica de usar o balanço corporativo para acumular o ativo. A publicação lembra ainda que a taxa básica de juros no Brasil estava em 13,75% na referência citada, e que o volume de negociação de criptomoedas no país superou US$ 200 bilhões no ano anterior.
Para o investidor brasileiro, a decisão tem implicações práticas. Com juros elevados, manter caixa aplicado em renda fixa costuma render de forma previsível, e trocar parte disso por bitcoin significa aceitar mais risco em troca de uma expectativa de valorização. Acionistas da Méliuz passam a ter exposição indireta ao preço do bitcoin, o que pode aumentar a oscilação das ações conforme o mercado cripto se movimenta.
O caso também pode servir de referência para outras empresas listadas na bolsa brasileira que avaliem estratégias parecidas. Por outro lado, a adoção de bitcoin em tesouraria ainda é pouco comum no país, e os resultados dependerão do comportamento do ativo nos próximos anos. A criação do comitê indica que a empresa pretendia estudar novos passos, sem compromisso anunciado de ampliar a fatia além dos 10% aprovados naquele momento.
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