Grandes investidores já não discutem se compram bitcoin, e sim como financiar e guardar o ativo
Para os grandes investidores, a pergunta sobre o bitcoin mudou. Em vez de discutir se vale a pena ter a criptomoeda, as instituições passaram a discutir como financiar, guardar e usar esse ativo. É o que mostra uma nota setorial da TD Cowen, divisão da TD Securities, publicada depois da conferência Bitcoin Treasuries, realizada em 28 de setembro em Nova York, segundo o Bitcoin.com News. O analista Lance Vitanza identificou três temas que estão moldando essa fase.
O primeiro é a construção de uma infraestrutura de mercado de capitais em torno do bitcoin. Na conferência, os participantes discutiram títulos de dívida lastreados em bitcoin, ações preferenciais, papéis conversíveis e estruturas de financiamento de tesouraria. Para Vitanza, a conversa está indo além de ter bitcoin e passando para o ecossistema construído ao redor dele: mercado de capitais, regras de implementação e infraestrutura institucional.
A Strategy, listada na Nasdaq com o código MSTR, é citada como exemplo. Em 28 de setembro, a empresa comprou mais 1.665 bitcoins e recomprou US$ 152 milhões em ações preferenciais. Essas ações dão ao investidor exposição às reservas de bitcoin da companhia com um perfil de risco diferente do de comprar a moeda diretamente.
O segundo tema é a forma de guardar e montar a carteira. As instituições discutem se usam fundos negociados em bolsa (ETFs) ou custódia própria. Representantes da BlackRock descreveram as duas opções como complementares, cada uma atendendo a um tipo de investidor. O iShares Bitcoin Trust, da gestora, dá exposição ao preço sem exigir que o cotista cuide de chaves privadas. A reportagem lembra que a SEC autorizou em julho de 2025 a criação e o resgate de cotas de ETPs de cripto com o próprio ativo, e não só em dinheiro, o que facilitou a operação desses fundos.
Os empréstimos com bitcoin como garantia também entraram na pauta. Michael Saylor, presidente executivo do conselho da Strategy, defende regras que permitam aos bancos guardar bitcoin e emprestar com base nele, o que exigiria gerenciar o risco de queda no valor da garantia. Planejamento sucessório, critérios de alocação para assessores e procedimentos para empresas que colocam bitcoin no caixa completaram a lista.
O terceiro tema é privacidade e segurança. Como o registro do bitcoin é público, empresas especializadas conseguem monitorar grandes transferências e tentar deduzir intenções de compra e venda, mudanças de custódia ou movimentos de capital. Essa transparência pode prejudicar instituições que executam estratégias de grande porte. As discussões de segurança foram além dos riscos atuais e incluíram controles de custódia, seguros e a preparação para uma possível ameaça da computação quântica às assinaturas digitais que protegem a rede. A Fidelity Digital Assets já analisou os custos técnicos de migrar para assinaturas resistentes a esse tipo de ataque, como o aumento do tamanho das assinaturas.
Como resposta ao problema de privacidade, os participantes apresentaram propostas como liquidação fora da rede principal, trocas de moedas e tecnologia de conhecimento zero, que limita o que é revelado numa transação sem deixar de atender às exigências regulatórias. A TD Cowen tratou essas ideias como propostas, sem garantia de adoção.
O retrato que fica é o de um mercado em amadurecimento: o bitcoin deixa de ser discutido apenas como aposta de preço e passa a servir de base para produtos financeiros mais sofisticados. Para o investidor, isso significa mais formas de exposição, mas também estruturas mais complexas, que exigem entender o risco de cada produto.
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