Computação quântica não ameaça o Bitcoin no horizonte próximo, sustenta artigo de Brandon Black
Computadores quânticos capazes de quebrar a criptografia do Bitcoin não devem surgir tão cedo e talvez nunca venham a existir. Essa é a tese central de um artigo de Brandon Black publicado na edição impressa dedicada ao tema, chamada "The Quantum Issue", que trata o medo em torno da tecnologia como uma versão mais elaborada de FUD, sigla em inglês para medo, incerteza e dúvida.
Na avaliação do autor, divulgada pela Bitcoin Magazine nesta quinta-feira (1º), não há qualquer evidência de que um computador quântico criptograficamente relevante, conhecido pela sigla CRQC, será construído na próxima década. Black vai além e sugere que limitações da própria física podem tornar essas máquinas impossíveis ou permanentemente inacessíveis.
Para sustentar o argumento, ele descreve o estágio atual da tecnologia com ironia. Segundo o texto, nenhuma máquina quântica calculou até hoje algo fora do alcance de "uma criança precoce de 6 anos". Os equipamentos dependem de pinças ópticas, resfriamento a laser, qubits supercondutores, armadilhas eletromagnéticas e refrigeradores de diluição, e exigem energia suficiente para "climatizar uma escola de ensino médio no Texas", além de muitas horas de preparação e de pós-processamento para cada cálculo.
Outro ponto do artigo questiona a ideia de que muito dinheiro garante avanço. Black compara o ônibus espacial da NASA, que consumiu cerca de US$ 50 bilhões até a primeira missão tripulada, com o Falcon 9 da SpaceX, que chegou lá com menos de US$ 5 bilhões e mantém histórico perfeito de segurança das tripulações. Para ele, "nenhuma quantia de dinheiro torna praticável uma tecnologia que não está pronta", e o excesso de financiamento pode até indicar a falta de um produto viável.
O autor também relativiza os avanços anunciados recentemente. Ele os divide em dois grupos: progressos de matemática pura, como um estudo do Google que teve um circuito quântico ocultado, decisão que Black classificou como "puro teatro", e avanços de hardware que, em sua visão, parecem mais uma busca às cegas num espaço infinito de possibilidades do que um caminho linear rumo a um CRQC. No plano teórico, quebrar a segurança de 128 bits das curvas elípticas exigiria uma superposição capaz de representar todos os valores possíveis de um número de 128 bits, algo que, na computação clássica, demandaria mais armazenamento do que a humanidade já produziu, por muitas ordens de grandeza. Entre os obstáculos possíveis, ele cita a granularidade da superposição e o crescimento da energia necessária conforme a complexidade aumenta, barreiras que a física quântica atual não descarta.
Apesar do tom cético, a conclusão não é de acomodação. Black lembra que outra falha na criptografia de curvas elípticas pode ser encontrada por outros meios e defende que o desenvolvimento continue. Ele menciona propostas como P2MR ou P2TRv2 e esquemas de assinatura pós-quântica como SHRINCS, SPHINCS, IBC e ML-DSA, que, na sua avaliação, vão reforçar a resiliência do Bitcoin com ou sem a chegada de um CRQC.
Para quem guarda Bitcoin no Brasil, o texto funciona como contraponto às manchetes alarmistas sobre o assunto. Trata-se, porém, da opinião de um autor, e não de um consenso técnico. O debate sobre como e quando preparar a rede para assinaturas resistentes a computadores quânticos segue aberto entre desenvolvedores, e o próprio artigo reconhece que esse trabalho precisa continuar.
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