Baixa movimentação on-chain nem sempre é fracasso para ativos tokenizados, defende diretor da Falcon Finance
Nem todo ativo tokenizado que fica parado em uma carteira está falhando. Essa é a tese de Artem Tolkachev, diretor de ativos do mundo real (RWA) da Falcon Finance, em entrevista ao crypto.news. Para ele, o uso desses produtos deve ser avaliado caso a caso, de acordo com a função para a qual foram criados.
A frase que resume o argumento é direta: um fundo de títulos do Tesouro americano que paga seu rendimento e cumpre resgates no prazo está fazendo seu trabalho mesmo parado numa carteira. Na visão de Tolkachev, baixa atividade só é problema quando o produto foi desenhado para servir de garantia em empréstimos ou para circular em aplicações de finanças descentralizadas.
Os dados citados na reportagem ajudam a dimensionar o debate. Segundo o RWA.xyz, em 15 de setembro havia US$ 38,86 bilhões em ativos tokenizados distribuídos, com cerca de 4,24 milhões de detentores. Os títulos do Tesouro americano somavam US$ 15,9 bilhões, commodities US$ 4,9 bilhões, estratégias ativas US$ 3,6 bilhões, crédito garantido por ativos US$ 2,56 bilhões e ações US$ 2,52 bilhões.
Os níveis de utilização variam muito. De um mercado de US$ 34,6 bilhões, US$ 3,79 bilhões estavam aplicados em protocolos. Produtos como JAAA e reUSD tinham utilização acima de 97%, enquanto BUIDL, BENJI e USYC ficavam abaixo de 1%. Segundo a Pantera Capital, 77,6% dos ativos rastreados são "wrappers". Já CoinShares e Token Terminal apontam que os depósitos de ativos tokenizados passaram de US$ 2,3 bilhões no segundo trimestre de 2025 para US$ 7,4 bilhões no mesmo período de 2026, com a Ethereum concentrando quase 70%, enquanto o total de DeFi caiu cerca de 15%.
Quando RWAs são usados como garantia, Tolkachev alerta que os credores precisam considerar a diferença entre o funcionamento contínuo da blockchain e o horário de negociação dos mercados de origem, e não tratar preços desatualizados como avaliação corrente. A Falcon, segundo ele, verifica direitos legais, termos de resgate, liquidez no mercado secundário e qualidade de crédito. "Isso é solucionável, mas precisa ser projetado no produto. A tokenização sozinha não resolve", afirmou. A Castle Labs, em relatório de 14 de setembro, vai na mesma linha ao defender que plataformas ofereçam formas práticas de negociar, emprestar e movimentar esses ativos.
O pano de fundo institucional também avança. A DTCC realizou em julho de 2026 transações reais de tokenização, incluindo operações compromissadas com títulos do Tesouro e empréstimo de valores mobiliários, nas redes Besu e Canton. A SEC emitiu carta de não objeção para o serviço, com lançamento previsto para outubro de 2026, e mais de 30 empresas participaram da iniciativa.
Para quem acompanha o mercado, a entrevista ajuda a ler com mais cuidado as métricas de tokenização. Volume parado não significa necessariamente fracasso, mas ativos criados para servir de garantia precisam de liquidez, preços confiáveis e regras de resgate claras antes de ganharem escala em DeFi.
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