B3 prepara ações tokenizadas para o segundo semestre, mas negociação direta fica para depois
Ações brasileiras ganharão uma réplica em blockchain a partir do segundo semestre de 2026, mas quem esperava negociar esses tokens diretamente terá de aguardar. Em junho de 2026, durante um evento da própria bolsa dedicado à tokenização, a B3 detalhou o alcance e os limites da primeira fase do projeto, que prevê a criação de uma cópia digital da base de dados do seu depositário central.
A explicação veio de Rodrigo Nardoni, vice-presidente de Tecnologia da B3. "O que teremos é uma réplica fiel da base de dados do depositário tradicional em uma blockchain, representada na forma de tokens. Não estamos falando, nesta etapa inicial, de negociar esses tokens no mercado", afirmou. Na prática, a bolsa vai espelhar em blockchain as posições que já existem no sistema tradicional, sem mudar a forma como as ações são compradas e vendidas.
Mesmo sem negociação, a iniciativa tem utilidade. A B3 também discutiu o uso de blockchain para facilitar a conciliação de informações entre corretoras e a validação de posições, processos que atualmente exigem cruzamento de dados entre várias instituições. Um registro compartilhado pode simplificar essa rotina e reduzir divergências.
O passo seguinte pode passar pelas stablecoins. Nardoni avaliou que "a ascensão das stablecoins pode abrir espaço para liquidações de ações com moedas digitais em modelos mais diretos e atômicos", em referência a operações em que a entrega do ativo e o pagamento acontecem no mesmo instante. Ele fez questão de relativizar a previsão: "Não estou dizendo que isso vai necessariamente acontecer, mas precisamos estar preparados para essa possibilidade". Para o executivo, "a tokenização avança como um dos principais motores de transformação no mercado financeiro".
Nesse contexto, a bolsa pretende lançar ainda em 2026 a B3RL, uma stablecoin atrelada ao real e lastreada principalmente em dinheiro e títulos públicos, seguindo modelos já conhecidos no mercado. Como descreveu o Bitcoin.com News, essas stablecoins poderiam, no futuro, viabilizar liquidações em blockchain e, eventualmente, a negociação de ativos tokenizados, embora a iniciativa ainda esteja em fase de prova de conceito.
Para o investidor brasileiro, nada muda de imediato no dia a dia. As ações continuarão sendo compradas pelo home broker, com liquidação pelos sistemas tradicionais, e a réplica em blockchain funcionará nos bastidores. O movimento, porém, indica a direção que a principal bolsa do país está tomando e prepara a infraestrutura para mudanças maiores, como liquidação instantânea e produtos tokenizados negociados diretamente.
O recado da B3 é de cautela. A empresa preferiu começar pela camada de registro, considerada de menor risco, antes de mexer na negociação, que envolve regras da CVM, proteção ao investidor e a atuação das corretoras. Até que essas etapas avancem, a tokenização de ações no Brasil deve ser entendida como uma modernização da infraestrutura, e não como uma nova forma de investir disponível ao público.
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