Thorchain recusa pedido da Bitget e afirma que protocolo não tem como barrar carteiras de hackers
Neutralidade tem preço, e a Thorchain diz estar disposta a pagá-lo. O cofundador e desenvolvedor-chefe do protocolo, Chad Barraford, defendeu publicamente a decisão de não congelar carteiras ligadas aos criminosos que atacaram a corretora Bitget, mesmo depois de um pedido feito diretamente pela presidente-executiva da empresa, Gracy Chen.
A solicitação surgiu poucos dias depois do ataque que levou mais de US$ 388 milhões em ativos digitais da Bitget. A suspeita é de que o roubo tenha sido obra de hackers apoiados pela Coreia do Norte. A executiva pediu que a Thorchain, protocolo de trocas entre blockchains que funciona desde 2021, congelasse os endereços vinculados aos invasores para dificultar a circulação dos valores desviados.
Em declarações reproduzidas pelo Bitcoin.com News nesta quinta-feira (1º), Barraford explicou que a recusa não é uma questão de vontade, mas de arquitetura. "Esse botão não existe, e nunca foi construído, de propósito", afirmou. Segundo ele, o protocolo conta com um mecanismo de parada de emergência que os operadores podem acionar para pausar as negociações em toda a rede, ou em uma blockchain específica, quando o próprio protocolo estiver sob ameaça.
O desenvolvedor fez questão de diferenciar essa ferramenta de um bloqueio seletivo. "Ela para todo mundo de uma vez. É um disjuntor, não um bisturi", disse. "Não há uma função para entrar, isolar a transação de uma pessoa e negá-la enquanto todos os outros continuam negociando." Por isso, resumiu, quando a equipe diz que não consegue bloquear um endereço específico, quer dizer que "não pode, e não que não quer".
A posição não é inédita. Em 2025, a Thorchain já havia rejeitado um pedido da Bybit, que contava com o apoio do FBI, para incluir em uma lista de bloqueio endereços ligados a cibercriminosos norte-coreanos patrocinados pelo Estado. Agora, diante de um novo pedido de uma grande corretora, o protocolo repete a mesma linha e mantém a infraestrutura sem permissões como prioridade.
Barraford reconhece que a escolha tem consequências. "Minha posição honesta é que a neutralidade tem um custo real, e não vou fingir que não tem", declarou. "Significa que a rede é usada por pessoas que você preferiria que não a usassem." Ainda assim, ele sustenta que a alternativa seria pior e que a confiança dos usuários depende justamente de uma rede que não escolhe quem pode ou não fazer transações.
Para o cofundador, a recuperação de recursos roubados acontece em outro ponto da cadeia. "Ela ocorre nas bordas, onde o cripto encontra o sistema financeiro tradicional", afirmou, citando corretoras, rampas de saída para moeda fiduciária e os pontos regulados em que alguém precisa se identificar para sacar o dinheiro. Ele argumenta ainda que a transparência das redes ajuda os investigadores: "O rastreamento funciona exatamente porque os trilhos não escondem nada. Fechá-los não impediria o roubo; só tornaria o dinheiro mais difícil de seguir."
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