Regra do Fed para resgate de stablecoins em dois dias deixa de fora US$ 76 bilhões parados em corretoras
A nova proposta do Federal Reserve para stablecoins pode ter alcance menor do que parece. Segundo a CryptoSlate, a regra estabelece prazo geral de dois dias úteis para que emissoras supervisionadas pelo Board resgatem tokens após o pedido, mas não alcança cerca de US$ 76 bilhões em stablecoins mantidos em corretoras.
A proposta foi anunciada pelo Board em 24 de setembro de 2026 e publicada no Federal Register em 29 de setembro. Pela seção 247.12, as emissoras precisarão divulgar seu procedimento de resgate e aceitar pedidos para pelo menos um token, sujeitos a verificação e processo de cadastro. O Board poderá estender o prazo por razões de segurança, estabilidade financeira ou interesse público, e há proteções limitadas para atrasos causados por checagens obrigatórias de clientes ou por fatores fora do controle da emissora.
O valor de US$ 76 bilhões vem de levantamento do Andersen Institute for Finance and Economics, com data de 28 de julho de 2026, sobre 12 stablecoins lastreados em dólar. Desse total, US$ 61,5 bilhões estão em USDT e US$ 10,1 bilhões em USDC. O instituto trata o número como estimativa mínima, porque parte das carteiras de corretoras não pode ser identificada.
O problema, segundo a CryptoSlate, está na cadeia de obrigações. Quem guarda stablecoins em uma corretora depende primeiro de a plataforma liberar ou converter o saldo, e essa relação segue os termos da corretora, não os do emissor. Na Circle, o resgate direto de USDC fica restrito a titulares elegíveis com conta ativa no Circle Mint, serviço descrito como voltado a distribuidores institucionais. A Coinbase afirma que o cliente é dono do saldo, mas que não é obrigada a recomprar USDC por dólares, e se reserva o direito de suspender envios ou negociações. A Tether exige cliente verificado e mínimo de US$ 100 mil para resgate direto.
A reportagem também revisita o estresse do USDC em março de 2023. Em 9 de março, as corretoras detinham 15,2% da oferta e acabaram respondendo por 40% da queda total. Entre 10 e 13 de março, a oferta caiu US$ 2,7 bilhões enquanto os saldos em corretoras subiram US$ 600 milhões. Depois, a oferta recuou outros US$ 8,1 bilhões e os saldos em corretoras caíram US$ 4,9 bilhões. Na avaliação do veículo, esse histórico oferece orientação limitada sobre como o USDT ou outras moedas se comportariam numa crise futura.
Para o investidor brasileiro, que usa stablecoins com frequência como reserva em dólar dentro de corretoras, o recado é prático: a proteção de resgate rápido prevista pelo Fed vale na relação com o emissor, e não necessariamente no saldo mantido na plataforma. Em momentos de estresse, quem manda são os termos de uso da corretora.
Para quem acompanha o mercado, a proposta representa avanço regulatório nos Estados Unidos, mas a análise da CryptoSlate mostra que o risco de liquidez precisa ser avaliado emissor por emissor e plataforma por plataforma, considerando elegibilidade e regras de cada intermediário.
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