FMI vê lacunas na supervisão do mercado cripto brasileiro e cobra proteção ao investidor
Fluxos internacionais baseados em criptomoedas crescem de forma contínua no Brasil desde 2017 e já superam os volumes de capital que circulam pelos canais tradicionais. A constatação está no relatório de Avaliação da Estabilidade do Sistema Financeiro divulgado pelo Fundo Monetário Internacional em julho de 2026, que reconhece a escala do mercado cripto brasileiro e, ao mesmo tempo, aponta falhas relevantes na forma como ele é supervisionado.
Entre os números citados, os fluxos de stablecoins no Brasil chegaram a US$ 2,6 bilhões em maio, alta de 158% na comparação anual. As stablecoins, criptomoedas atreladas a moedas como o dólar, se tornaram uma das principais portas de entrada do brasileiro no setor, seja para pagamentos, seja para proteção contra a variação cambial.
O diagnóstico do FMI foi destacado pelo portal Bitcoin.com News, em texto de Sergio Goschenko. Segundo a leitura do Fundo, o arcabouço brasileiro ainda apresenta lacunas importantes. A primeira é a falta de proteções legais para os clientes. A segunda é a ausência de exigências de segregação de ativos, ou seja, de regras que obriguem as empresas a manter o dinheiro dos clientes separado do patrimônio próprio. O relatório também menciona a aplicação incompleta da chamada Travel Rule, norma internacional que exige o compartilhamento de dados de remetentes e destinatários em transferências, e a implementação ainda parcial das medidas de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.
O documento chama atenção ainda para um ponto estrutural. Na avaliação do FMI, "o sistema cripto brasileiro está interligado ao sistema financeiro tradicional", o que torna necessário reforçar a supervisão transfronteiriça, com mais cooperação entre os reguladores nacionais e os de outros países. Em outras palavras, problemas no ecossistema de criptoativos não ficariam isolados, podendo se propagar para bancos e instituições de pagamento.
As recomendações do Fundo não têm força de lei, mas costumam pesar nas discussões de política econômica e regulatória. Relatórios desse tipo servem de referência para autoridades locais e para investidores estrangeiros que avaliam o risco de um país, e as críticas sobre proteção do cliente e segregação patrimonial tocam em temas sensíveis depois de colapsos de corretoras em outros mercados.
Para o investidor brasileiro, a mensagem é de cautela. Enquanto as lacunas apontadas pelo FMI não forem fechadas, a segurança do dinheiro depositado em plataformas cripto depende muito das práticas de cada empresa. Vale conferir se a corretora informa como guarda os ativos dos clientes, se há separação patrimonial declarada e quais são suas políticas de prevenção à lavagem de dinheiro. Para quem usa stablecoins em remessas ou pagamentos internacionais, o recado é que esse segmento tende a ficar no centro das atenções de reguladores dentro e fora do país.
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