Dólar digital poderia atrair US$ 1 trilhão de fora dos EUA, afirma executivo da Circle
Um trilhão de dólares em demanda estrangeira. Esse é o volume que os Estados Unidos poderiam deixar de captar caso mantenham barreiras às stablecoins lastreadas em dólar, na avaliação de Nikhil Chandhok, executivo da Circle, empresa emissora do USDC. A declaração foi feita durante o evento Moonshots LIVE.
Segundo Chandhok, pessoas fora do território americano estariam dispostas a levar uma quantidade expressiva de capital para stablecoins atreladas ao dólar, desde que os obstáculos regulatórios fossem retirados. Em tom de frustração com a resistência que o setor enfrenta no país, ele questionou por que os Estados Unidos não querem esse sistema de pagamentos, argumentando que o país poderia levantar um trilhão de dólares no mundo, porque as pessoas acreditam na moeda americana.
O executivo também criticou a infraestrutura bancária internacional. De acordo com ele, cerca de US$ 3 trilhões estão, a todo momento, em trânsito dentro do sistema bancário global, o que ele considera um sinal de que a estrutura atual está ultrapassada. Na visão de Chandhok, as stablecoins em dólar permitem transferir direitos sobre a moeda de forma digital e mais rápida, sem depender dos intermediários bancários tradicionais.
A reportagem faz uma ressalva importante: o número de US$ 1 trilhão representa uma estimativa de demanda potencial no futuro, e não uma perda efetiva ou um cálculo formal de custo ligado a alguma regra específica. Chandhok não apontou quais normas estariam provocando esse suposto prejuízo. Trata-se, portanto, da opinião de um executivo de uma empresa diretamente interessada no crescimento desse mercado.
O pano de fundo regulatório é a Lei GENIUS, que estabeleceu regras para as stablecoins nos Estados Unidos. Pela legislação, os emissores precisam manter reservas equivalentes ao total de tokens em circulação. Podem compor essas reservas dólares em espécie, depósitos, títulos de curto prazo do Tesouro americano e outros ativos considerados elegíveis. Em 24 de setembro, o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, publicou uma proposta de regras sobre essas reservas, com data prevista de entrada em vigor em 18 de janeiro de 2027.
A Circle, enquanto isso, segue expandindo seus negócios. Em julho, as ferramentas de liquidação com USDC da empresa foram conectadas à Fireblocks, o que permite a instituições acessar rotas de pagamento em mais de 50 países, com liquidação em poucos minutos. A própria Fireblocks informou que as stablecoins responderam por 69% do volume de transações com ativos digitais no segundo trimestre de 2026.
Para o Brasil, o debate tem peso prático. O país está entre os mercados em que o uso de stablecoins em dólar cresce de forma consistente, seja para proteção contra a volatilidade do real, seja para pagamentos internacionais e remessas. Quando um executivo da Circle fala em demanda estrangeira represada, ele se refere justamente a usuários de economias como a brasileira, que buscam acesso ao dólar por canais digitais. Mudanças nas regras americanas podem, assim, influenciar a oferta e o custo desses produtos para quem opera a partir daqui.
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