Aporte da Binance fortalece a Circle na disputa com a Tether pelas stablecoins
US$ 100 milhões foi o valor que a Binance, maior corretora de criptomoedas do mundo, investiu em ações da Circle, emissora da stablecoin USDC. Além do aporte, as duas empresas assinaram um acordo comercial de cinco anos para promover e integrar a USDC em toda a plataforma da Binance. Segundo analistas ouvidos pelo CoinDesk, o movimento dá fôlego à Circle na corrida contra a Tether, dona da USDT e líder absoluta do segmento.
Stablecoins são criptomoedas atreladas a uma moeda tradicional, geralmente o dólar, e servem como ponte entre o sistema financeiro e o mercado cripto. No Brasil, elas ganharam espaço entre investidores e empresas que buscam exposição ao dólar ou uma forma mais ágil de fazer transferências internacionais.
Hoje, a USDC tem valor de mercado de aproximadamente US$ 74 bilhões e ocupa o segundo lugar entre as stablecoins em dólar. A USDT, da Tether, soma cerca de US$ 140 bilhões. Com o acordo, a Binance passa a ter interesse financeiro direto no crescimento da Circle, enquanto a emissora ganha acesso ampliado a uma das maiores bases de usuários do setor.
A parceria não começou agora. Desde dezembro de 2024, quando as empresas firmaram a primeira aliança, a negociação de USDC na Binance cresceu de forma expressiva. O número de mercados à vista cotados em USDC subiu de 140 para 329. O volume mensal negociado com a moeda na corretora praticamente dobrou, saindo da faixa de US$ 20 bilhões a US$ 40 bilhões para patamares consistentemente acima de US$ 80 bilhões.
A empresa de pesquisa Kaiko aponta que a Binance concentra a maior fatia da negociação à vista de USDC e processa volumes diários entre US$ 5 milhões e US$ 10 bilhões, algo entre 10 e 20 vezes mais do que a maioria das outras plataformas.
Owen Lau, analista da Clear Street, avalia que o acordo otimiza a relação e alinha ainda mais os interesses da Binance aos da Circle. Ele compara o arranjo ao modelo que a Circle já mantém com a Coinbase, parceira histórica na distribuição da USDC.
Martins Benkitis, CEO da Gravity Team, concorda que há incentivo claro dos dois lados para expandir a USDC entre os usuários da Binance. Ele pondera, porém, que a Tether tem pares de negociação profundos, liquidez local e, sobretudo, um público já acostumado a usar a USDT. Por isso, na visão dele, uma mudança rápida de participação de mercado é improvável.
A Circle também tem buscado espaço em mercados emergentes por outras frentes. Uma delas é a Circle Payments Network, rede criada para conectar instituições financeiras em pagamentos com stablecoins. Outra é a compra da Tazapay, empresa de Singapura, por US$ 400 milhões. A aquisição tem como objetivo garantir relacionamentos bancários locais e infraestrutura de pagamentos em países em desenvolvimento, região onde a Tether historicamente tem presença forte.
A disputa, contudo, não se resume às duas emissoras. Empresas tradicionais de pagamento, como Visa, Mastercard e Stripe, também estão desenvolvendo soluções com stablecoins e blockchain, o que indica que a concorrência pelo dólar digital deve ficar ainda mais acirrada nos próximos anos.
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